Dores reumáticas: como identificar?

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Na falta de diagnóstico e tratamento, essas patologias podem evoluir para formas mais graves e perigosas

A origem do termo “reumatismo” vem do grego antigo e significa “fluir” ou “fluxo”. Por um lado, essa etimologia reflete a crença da medicina da época, que achava que o reumatismo seria derivado da alteração de certos fluidos viscosos que “fluem” no corpo e que, em um processo de doença, seguiria de forma anormal para dentro das juntas.

Hoje sabemos que não é bem assim, mas, por outro lado, se pararmos para analisar bem o termo, notamos que ele pode fazer alusão à tendência de muitas doenças reumáticas de “incharem” certas regiões do corpo, com o acúmulo de líquido inflamatório, particularmente nas juntas.

Digo “esses quadros” pois o reumatismo não é uma doença apenas, mas um termo geral que indica mais de 200 patologias diferentes, que divergem em causa, curso e dano causado no corpo humano.

E o que as une nesse mesmo agrupamento? O fato de afetarem, principalmente, o tecido conjuntivo e de suporte do sistema musculoesquelético, composto pelos ossos, músculos e tendões, articulações, bursas e ligamentos. Além desses, existem outras variantes da doença que também podem afetar órgãos e tecidos, como o coração, os vasos sanguíneos, os pulmões, os rins, a pele, o intestino, os olhos etc.

As formas mais conhecidas de reumatismo são: artrose, artrite reumatoide, lúpus, gota, osteoporose, tendinite, bursite e fibromialgia.

Os três principais grupos de reumatismo

De acordo com o Dr. Felipe Mendonça, reumatologista do Hospital Santa Paula, a classificação sobre como ordenar os tipos de reumatismo pode diferir de acordo com o profissional. De qualquer forma, os três principais grupos são os descritos abaixo:

  1. Artrites autoimunes – doenças que envolvem inflamação articular e, frequentemente, de outros tecidos, órgãos e estruturas ao redor da articulação. Tem origem autoimune e um potencial elevado de progressão – não só de lesão na junta, mas também de acometimento de outros órgãos do corpo humano, implicando sequelas e deformidades. Justamente por isso, são mais graves e perigosas e demandam, o quanto antes, a busca de serviço médico especializado em reumatologia para iniciar o tratamento adequado. Esse também é o grupo que apresenta maior leque de tratamentos na medicina hoje em dia. Exemplos mais comuns: lúpus, artrite reumatoide e artrite psoriásica.
  2. Doenças reumáticas funcionais – são aquelas que não estão associadas à lesão no local de dor. Exemplo mais comum: fibromialgia, doença em que há uma sensação exacerbada da dor por causa de uma alteração na percepção neurológica.
  3. Doenças reumáticas degenerativas – envolvem o desgaste e a degeneração da cartilagem, bem como do restante dos outros componentes da articulação, sendo mais comum com o avançar da idade. Exemplo mais comum: osteoartrite, popularmente conhecida como artrose.

Como identificar a presença de dores reumáticas?

Essa não é uma tarefa fácil, uma vez que os sintomas dos diferentes tipos de reumatismo variam muito entre si, até mesmo pela quantidade de possibilidades, dependendo também da parte do corpo afetada. Porém, vamos destacar os sinais mais comuns:

  • dor nas articulações, especialmente nas mãos e nos pés;
  • inchaço, vermelhidão e calor na área afetada;
  • psoríase acompanhada de dores no corpo;
  • lesões na pele ou úlceras;
  • rigidez matinal;
  • fadiga acompanhada de febre ou perda de peso;
  • deformação das mãos e presença de nódulos nos dedos;
  • ruídos nas juntas, isto é, estalos e “rangidos”, como se houvesse atrito interno;
  • olhos e boca muito secos;
  • dificuldade em se mover e fazer gestos simples.

Se você já teve algum desses sintomas, consulte um especialista o mais rápido possível, já que tais queixas podem não corresponder necessariamente ao início da doença, e um diagnóstico precoce permite intervir com a terapia mais adequada e precisa, de forma a melhorar a qualidade de vida do paciente.

Embora algumas formas de reumatismo (como artrose, pseudogota e osteoporose) estejam relacionadas com a idade, afetando, sobretudo, os idosos, é importante destacar que adultos, crianças e adolescentes também podem ser acometidos por formas reumáticas inflamatórias, como a artrite idiopática juvenil (AIJ), as vasculites e a esclerodermia.

Existem fatores de risco? E formas de prevenção?

“Não é possível citarmos fatores de risco para o reumatismo de modo geral, uma vez que nenhum fator é comum a todos os tipos da patologia, visto que eles têm mecanismos totalmente diferentes. No entanto, existem alguns detalhes que se repetem em muitos casos, sendo mais frequentes, como a obesidade (fator de risco para artrose, bursite, tendinite, gota e lesões por repetição, entre outros reumatismos, por causa do impacto e da carga nas juntas do paciente), o tabagismo (fator de risco para todos os reumatismos inflamatórios) e a idade (como já citamos anteriormente, agrava as chances de desenvolvimento da osteoporose, artrose e pseudogota, por exemplo). A história genética também influencia muito essas doenças, principalmente diante de um gatilho, ou seja, um ou mais fatores que vão pressionar a predisposição e fazer surgir a doença em si”, explica o Dr. Felipe.

Da mesma forma, o especialista pontua que, por se tratar de centenas de possibilidades, também não é possível definir uma forma de prevenção única. Porém, algumas recomendações gerais, que podem frear alguns desses quadros, são justamente relacionadas com o parágrafo anterior, ou seja, evitar o ganho excessivo de peso e manter-se saudável; combater o sedentarismo; praticar atividades físicas regularmente; fortalecer a musculatura do corpo; não fumar e não ingerir alimentos com alto teor de ácido úrico (sushi e frutos do mar em geral, fígado, rins, miolo, coração, pizza, bacon, embutidos etc.).

Sobre as causas do reumatismo, o médico destaca ainda que, atualmente, estão se expandindo os estudos sobre a investigação e a descoberta das substâncias inflamatórias que dão início à doença reumática e a perpetuam, principalmente as artrites autoimunes, citadas anteriormente. “O campo de estudos sobre as possíveis moléculas inflamatórias que contribuem para o surgimento desse tipo de doença é o que mais está avançando na reumatologia, graças às medicações constantemente lançadas, que atuam especificamente para combater essa patologia”, complementa.

E quanto aos tratamentos?

Mais uma vez, o grande número de enfermidades envolvidas no grupo dos reumatismos impossibilita a definição de um tratamento único específico, uma vez que isso pode variar com base no agente causador. Algumas doenças podem ser curadas ou interrompidas, outras envolvem apenas o controle da inflamação e da dor. Entre possíveis soluções estão a prática de exercícios físicos, massagens e fisioterapia para áreas específicas, intervenções naturais ou medicamentosas e até mesmo cirurgias.

Se você suspeita que tem reumatismo, marque uma consulta com um especialista. Assim, é possível introduzir o tratamento adequado logo que surgem as primeiras manifestações da doença para impedir que ela progrida.

Fonte: Dr. Felipe Mendonça, reumatologista do Hospital Santa Paula.