O caminho se faz ao caminhar
21.05.10
Já dizia meu chefe que essa é uma das melhores frases já escritas. Aprendi a admirá-la depois que a escrevi em meu caderno de notas. Tenho um caderninho de ideias para a vida, coisa que aprendi também a levar comigo para todos os lugares onde vou, assim como minha câmera, meu notebook e mais uns 200 itens que nunca sei quando vou usar, mas sempre uso.
Guimarães Rosa não a escreveu à toa, tinha lógica e emoção na frase.
Recentemente estava vendo um filme e me lembrei rapidamente da frase. Dois policiais- como em todos os filmes de policias- em busca de um serial killer, chegam ao local do assassinato. Antes que qualquer análise fosse feita, o guarda responsável pelo local se dirige a eles e diz que se tratava de um suicídio. Um deles pergunta: se o senhor já sabe do que se trata por que nos chamaram? Silêncio total.
As pessoas gostam mesmo é de ler o final do filme antes do meio. Querem saber o resultado antes mesmo da análise, da leitura, do viver. O viver propicia novos finais, novas conquistas, e por que não acreditar que o que é mais bacana nisso tudo não é saber o final e sim vivenciar o meio?
Lembro-me bem de algo que aprendi quando ainda era pequeno. Aguardava com ansiedade um aniversário, eu devia ter uns 13 anos. A festa seria um grande motivo para que eu convidasse uma garota para dançar comigo. Tenho 35 anos e há 20 isso ainda acontecia. Lembro que escolhi a roupa certa pra ir, o perfume de papai, os ensinamentos de mamãe, e tudo deu certo. O tal baile foi um sucesso, com direito a beijo e tudo mais. O final do baile não foi tão excitante quanto a semana anterior. Foi ali que papai disse: o melhor da festa é esperar por ela.
Hoje ainda me deparo com essa situação. Trabalho em um meio onde o que interessa é a preparação. O ato em si é do cliente. Ele é quem curte o final. Eu trabalho para que ele possa desfrutar do final. Acredito ser assim na saúde. As pessoas estudam, preparam-se para que o final seja única e exclusivamente do cliente.
Conheço pelo menos uns 200 hospitais que estão passando por um processo de expansão. Em todos os casos vejo com orgulho o olhar dos administradores para suas maquetes, investimentos, novos equipamentos. O mesmo olhar some no dia da inauguração. Lá a entrega é total, lá é ao vivo. Naquele momento o que importa é fazer o que se planejou. Até lá o clima de euforia é visível a distância.
Recentemente passei pelo Hospital Santa Paula (é amigos, eu não saio de lá), e vi a nova recepção. Lembro-me perfeitamente dos olhos do Dr. George quando iniciou as obras, contando o que ficaria em cada lugar, a confusão que seria em sua vida para fazer o pronto atendimento continuar em outro andar, as salas que subiriam, voltariam, etc. Há alguns anos no Hospital Sírio Libanês aconteceu o mesmo. O retrofit começou lá de cima. Lembro-me que um dos andares estava sendo reformado e os mesmos quartos tinham que ser transferidos para andares inferiores.
O bom administrador olha com orgulho para a maquete, sabe a distância entre ela e o que tem nas mãos, sabe desenhar bem o caminho para o sonho, e curte a cada minuto a história que está desenhando. É ela que faz com que ele acorde cedo e durma tarde, na certeza de desenhar a cada dia um novo final.
Alberto Leite é Diretor Executivo e Publisher da IT Mídia s.a