Bulimia, como identificar e tratar

Todos os dias somos bombardeados na televisão, nas revistas, na internet e nas redes sociais com imagens que nos remetem ao corpo perfeito, à forma física ideal, à quase demonização da obesidade. Muitas pessoas, porém, não conseguem lidar bem com esse excesso de importância dada à aparência e acabam desenvolvendo transtornos movidos pelo medo de engordar.

É o caso da bulimia, um distúrbio do apetite que se caracteriza primeiro por episódios de ingestão de alimentos de forma incontrolável, chamados de acessos de hiperfagia.

Estes episódios são seguidos de métodos extremos para evitar o ganho de peso como, por exemplo, vômitos forçados ou abuso de remédios laxantes.

Segundo Luiz Gonzaga Leite, psicólogo do Hospital Santa Paula, em São Paulo, a bulimia é um dos distúrbios alimentares mais comuns junto da Anorexia.

Um problema majoritariamente feminino

O Manual Diagnóstico e Estatístico feito pela Associação Americana de Psiquiatria enquadra a bulimia como um transtorno alimentar que pode acometer homens e mulheres. Apesar de afetar ambos os sexos, sua incidência é maior no gênero feminino. De acordo com uma pesquisa feita pelo jornal The New York Times no ano passado, cerca 95% dos pacientes com Anorexia e 85% dos pacientes com bulimia são do sexo feminino.

Segundo dados do AMBULIM, Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, a bulimia é um problema do qual até 4,2% das mulheres irão sofrer ao longo da vida, podendo aparecer em diversas idades.

Como as mulheres geralmente recebem uma pressão maior para manter os padrões de beleza, é comum estes transtornos serem mais retratados e atribuídos a elas. Conforme o site do AMBULIM bem esclarece, “os transtornos alimentares são produtos de uma complexa inter-relação entre aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais.”

Os dois tipos de bulimia

O termo completo utilizado pelos especialistas é bulimia Nervosa. Conforme explica o Dr. Gonzaga Leita, existem basicamente dois tipos do transtorno: “o tipo purgativo ocorre quando a pessoa se envolve regularmente na autoindução ao vômito ou recorre ao uso de medicamentos para isso. Já o tipo não purgativo se observa quando a pessoa não recorre ao vômito ou a medicamentos, mas desenvolve outros comportamentos compulsivos, como o excesso de exercício físico ou jejuns”, esclarece o psiquiatra.

O que está por trás destes transtornos alimentares?

Os distúrbios de apetite podem levar tanto à magreza excessiva quanto à obesidade, no caso de quem ingere alimentos de maneira obcecada. O mais corriqueiro, no entanto, são pessoas com Anorexia e bulimia, caracterizadas por um medo excessivo de ganhar peso, pois o paciente julga que todo o seu sucesso pessoal gira em torno disso. Essa condição leva a uma percepção distorcida do próprio corpo.

Em relação à bulimia, “esse estado de angústia mental pode levar o indivíduo a comer compulsivamente e depois sentir culpa e querer se livrar das calorias ingeridas, na maioria das vezes por meio de vômitos induzidos”, diz Luiz. Além disso, muitas vezes a bulimia está acompanhada de outras condições psiquiátricas, como depressão, ansiedade e outros vícios.

Diferenças entre bulimia e anorexia

Os dois transtornos muitas vezes são confundidos. É importante entender que na Anorexia a pessoa não come de maneira alguma por conta de seu medo de engordar. Mesmo com uma magreza extrema instalada, a ingestão de alimentos é mínima.

Na bulimia, a pessoa come tudo o que deseja – muitas vezes de forma descontrolada, num episódio de hiperfagia – e depois é tomada por um sentimento de culpa, remorso e medo de engordar. Então, toma medidas descabidas para evitar o ganho de peso, como se induzir ao vômito e valer-se de remédios para isso.

É importante notar que ambas as doenças são bastante maléficas à saúde. No entanto, estudos mostram que a taxa de mortalidade de pacientes com Anorexia é maior, e que parte significativa das pessoas que sofrem de Anorexia desenvolvem bulimia em algum momento.

Fatores de risco

Por ser uma doença psicológica, muitas vezes não há uma causa única por trás de seu aparecimento. Como já foi dito, fatores sociais, biológicos e da mente se combinam para gerar o quadro de bulimia Nervosa num indivíduo. O Dr. Luiz listou alguns aspectos importantes que são levados em conta:

  • Genética: “Não há dados concretos, mas percebe-se que pessoas que tenham parentes de primeiro grau que sofram algum tipo de transtorno alimentar também são mais propensas a desenvolver este mesmo transtorno”;
  • Sexo feminino: “Mulheres adolescentes e jovens tem maiores chances de desenvolverem a bulimia Nervosa – o que não exclui as chances dos homens de sofrerem com a doença”. Um dos possíveis motivos para isso é o fato de que as pressões sociais relacionadas ao padrão de beleza são muito maiores sobre as mulheres;
  • Transtornos psicológicos ou baixa autoestima: “Estes são dois fatores mais preponderantes e levam o paciente a desenvolver mais facilmente a bulimia. Gatilhos como estresse, dieta restritiva, tédio ou falta de autoconfiança acabam por produzir uma distorção da imagem corporal, chamada de dismorfia, e levando à Anorexia e/ou bulimia”;
  • Mídia e pressão social: “Revistas e programas televisivos apresentam um padrão de beleza universal que fazem com que muitas pessoas (em sua maioria meninas) associem a magreza ao sucesso e popularidade”;
  • Esportes, trabalho ou pressões artísticas: “Atletas e profissionais do meio artístico em geral – como atores e dançarinos – possuem maior risco de desenvolverem transtornos alimentares”. Esses casos são um pouco diferentes da pressão social porque a natureza de suas profissões muitas vezes requer um corpo de determinada forma. “Treinadores ou pais podem, involuntariamente, forçar essas pessoas a perderem peso e manter um peso baixo”.

Sintomas e complicações da bulimia

Antes de tudo, é preciso entender que as pessoas que sofrem de bulimia Nervosa são tomadas por um sentimento de culpa e vergonha. Por isso, é necessário que não só o paciente tente se policiar, mas também as pessoas ao seu redor precisam ficar atentas aos possíveis sinais.

Primeiramente, questões comportamentais podem servir de alerta. Já num estágio mais avançado da doença, é possível perceber consequências físicas.

  • Pessoas de baixa autoestima;
  • Medo infundado de ganhar peso e obsessão em emagrecer;
  • Distorção da própria imagem corporal (dismorfia);
  • Indivíduos com depressão, ansiedade ou que tenham alguma forma de vício;
  • Pessoa que comem em excesso e descontroladamente (hiperfagia);
  • Pessoas com vão ao banheiro imediatamente após as refeições regularmente;
  • Quem faz uso regular e sem acompanhamento médico de laxantes, diuréticos e outros remédios para perder peso.

Por conta dos vômitos constantes, diversos sinais físicos podem aparecer. “Entre algumas complicações estão a rouquidão devido ao refluxo gástrico, inflamação do esôfago, cáries e desgaste dos dentes. Isso ocorre principalmente por causa do ácido presente no estômago que sai junto do vômito”, alerta o Dr. Gonzaga Leite.

Tratamento

Primeiramente, o médico consultado deve ser um psiquiatra. É ele quem irá diagnosticar o distúrbio através de entrevistas e atendimentos. Depois, um nutricionista irá fazer parte do processo, ajudando o paciente a modificar seus hábitos alimentares, e um psicólogo também será importante nas terapias que deverão ser feitas.

A bulimia requer um tratamento em diversas frentes. Terapia, medicamentos e educação alimentar são alguns dos pontos importantes para quem quer vencer o problema. Além disso, a participação da família e de pessoas próximas é mais do que fundamental.

Grupos de apoio, terapias cognitiva e comportamental, psicoterapia interpessoal, terapia familiar, terapia psicoterápica são todas possibilidades válidas que serão recomendadas dependendo do especialista. Em relação aos remédios, os mais comuns de serem utilizados são os antidepressivos, mas vai depender de cada caso.

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